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06 julho 2009

Linhas: metade escritas, metades apagadas

Boa noite, caros amigos leitores, é com imenso prazer que escrevo esta crônica. O fato é que não tenho assunto algum de interessante para contar-lhes e decidi abrir o jogo: quantos contistas, quantos cronistas, quantos poetas fizeram algumas de suas produções com a ideia de falar de algo sem estar com ideia? Desculpe-me se soou confuso, mas refresco-lhe a memória: Drummond disse que "a mão que escreve este poema não sabe o que está escrevendo" e "gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever". Tudo bem, não gastei uma hora, pois logo veio-me a ideia já tanto discutida como essa (que os críticos chamam de metalinguagem). Bom, sem falar da (nova) Poética de Bandeira: "estou farto do lirismo bem comportado, do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor". Ou dos rítmicos e simétricos versos de João Cabral de Melo Neto? "Eu penso o poema da face sonhada, metade de flor metade apagada. O poema inquieta o papel e a sala. Ante a face sonhada o vazio se cala". E digo-lhes que um escritor sofre, além da vida tão "pau" (como diria o velho poeta Antônio Girão Barroso) temos que escrever periodicamente para agradar o prezadíssimo leitor do jornal. Fora os pedidos que nos fazem! A literatura não é mercadoria para encomendar, céus! Todos nós temos um quê de Meireles: "Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo".

Então assim como todos os imortais da academia de letras já passaram por algum momento de um vazio silenciado pela ausência da ideia, eu mero mortal, um escritor de gaveta que publica esses textos tão simplórios e ridículos, assim estou. E acho bom terminar a crônica por aqui, antes que eu escreva páginas e páginas de parágrafos tão cheios de nada.

"Pois aqui estou, cantando. Se eu nem sei onde estou, como posso esperar que algum ouvido me escute? Ah! se eu nem sei quem sou, Como posso esperar que venha alguém gostar de mim?"

02 abril 2009

Fumaça e temores

Ao apagar do último candelabro
Deu-se voz ao silêncio macabro
E eis que toda carne se fez espírito
Os lábios ressecaram-se
As mentes congestionaram-se
O campo físico perdeu-se
Entre fumaça e temores

Cegos raios de certeza
Eletrocutavam a consciência
Alheios botes se acalantavam
Gestos ocultos se mostravam
A culpa era notória
Dos homens desalmados
Ao redor da alma encorpada

O combustível pelo corpo escorreu
A identidade desfaleceu
Entre fumaça e temores

21 fevereiro 2009

Serpente

Não me toque
Esse seu corpo imundo
Sinto meu corpo arder

Suas palavras passeiam em
Meu cérebro num
Vai
e
Vem
Como serpende sábia
Que sai sibilando
________ sussurando
_______________suavemente
___________________surpreendendo sua
presa.
A minha alma rasgada e picada
Exala peçonha e dor
E está presa numa gaiola aberta
De portas abertas e cerradas
De sua boca cospe veneno
De suas presas saem palavras
Tão distantes ignotas idiotas
Não me toque
a madrugada sorri
o luar de prata cai sobre minha
cabeça
_________confusa
esse meu sangue imundo que jorro pela boca
esse meu falar arrastado
esse seu andar arrastado
a minha visão embaçada...
seus olhos de traição
não me toque
________não me toque
vá embora
sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss
________________sssssssssssssssssssssssssssssss
____________________________ssssssssssssssssssssssssaia.

06 fevereiro 2009

Saia desse corpo

The new tram started
Abertos braços para seu torniquete
Não distraio meus olhos
My mind is all sucked
Lindos momentos
Travados pela angústia
Cravados por sua fúria
Os Espinhos em meus pulsos
Sangria, nova vida para vós
Em nosso povoamento de descarinho
Without escrúpulos and nor affection
Processos idiomáticos perdidos
Em minha forçada emoção
Devotos são de uma futura erudição
Perdida em uma pose de inovação
Rimas quebradas neste instante
Para uma nova
Phrase in another language
Receoso pelo futuro julgamento
Enfeito aqui novas palavras de lamento
Perdidos estão todos os seres desta terra
Resta-nos procurar novas atenções
Provocando com desconexões
Novas estúpidas discussões
Saia desse corpo

04 fevereiro 2009

Veneno

Uma víbora mordeu minha língua
Anestesiando todos os meus sentidos
Com o seu veneno pecaminoso
E partiu para nunca mais retornar
Sentirei falta de seu veneno
Que fez-me esquecer
Seu mal-estar trouxe-me
Bem-estar
Bem-vindo ao esquecimento sadio
Saboreando um desejo doentio
De largar mão do bem pré-suposto
Para sentir os delírios saborosos
Proporcionados por uma droga natural
Víbora volte
Minha carne anseia por sua próxima mordida
Minha pele anseia pelo escorrer do frio suor
Desejos
Bocejos em sua espera
Demorada espera
Nexos cortados por seu veneno
Sim, é o que mais anseio

11 janeiro 2009

Hora do Remédio I

Ei, psiu, você! Já tomou remédio? Não? Está na hora, viu! Ei, ei! Cuidado com o fio! Como você se chama? Rebeca? Roberta, ah sim, desculpe. Porque a senhora está aqui? O seu filho é mau? Ei, rapaz, mais água aqui, por favor! Enfermeira, traga o remédio. Não mexa neste botão! Não mexa neste botão! EI, EI! Meu Deus do Céu! Acudam aqui! A mulher desmaiou! No três. 1, 2, 3. Nossa, como ela está gorda. Cale a boca e ajude! Você vai gritar comigo? Já estou! Ei, ei! Quem precisa ir para o hospício são vocês! Cuidado com a porta, cuidado com a porta! Abra a porta, Maria! Calma, senhor. Calma nada! Estou com uma idosa em meus braços quase morrendo! Quem o senhor ou a senhora? Não interessa abra logo. Finalmente. Ela acordou. Senhora, já disse que tem de tomar o remédio (e você não futrique nos aparelhos, senão vou mandar cortar sua língua!)

O que a senhora vê aqui? Espíííritos! Não, dona Roberta, quantos dedos a senhora vê aqui. Três, certo. Ela está bem. Mas dona Roberta, desde quando a senhora vê alma? Ah, sim, seu filho a internou aqui porque disse que a senhora estava ficando caduca? Me respeite! Perdão, senhora, mas ainda falta preecher seu formulário...

São todos uns idiotas, perdidos neste planeta! Idiotas alienados pela salvação! Vocês são uns vermes! Eu sou Deus! Maria, por favor, atenda o filósofo ali, que não estou mais com paciência. Dane-se! Não vou tomar esse remédio! Eu sou onipotente! Vocês, seres mortais, querem de destruir com essa pílula?! Vocês não vão...aaaah. Cof, cof. Pronto, agora pode discursar a vontade. Miserável!

Ei, EI, EI! Cadê meu remédio??? Vocês não querem dar o meu remédio? Vocês querem me matar? Eu tenho que tomar esse remédio! Eu preciso deles! EI, EI, enfermeira! [...]

Fim do expediente

23 dezembro 2008

O que me convém.


Eu não estou bem e nem preciso estar. Não preciso distribuir sorrisos forçados só pra não mostrar o quão frágil eu sou em determinadas situações. Não preciso estar alegre só porque é natal. Não preciso usar roupas da moda pra ser aceita na sociedade. Não preciso te tratar bem só pra ganhar um agrado. Não preciso fingir ser uma pessoa que eu não sou só pra atender as expectativas de alguns desconhecidos. Não preciso ouvir as músicas que me dizem para ouvir, vou escutar o que faz bem aos meus ouvidos. Não preciso falar de você pelas costas, tenho coragem o suficiente pra fazer isso na frente. Não preciso fingir que está tudo bem quando estou menstruada, e nem controlar a minha tensão pré-menstrual. Não preciso acordar cedo pra ficar sem fazer nada, olhando o tempo passar quando poderia estar aproveitando um sonho muito melhor. Não preciso agir diferente do que normalmente ajo só pra te agradar, e nem espere que eu o faça. Não preciso fazer nada, só o que me convém.

19 dezembro 2008

Insônia

Meu corpo arqueja
De cansaço, mas
Algo me incomoda,
Algo me mantém acordado
Para a sub-realidade.
Olho pro lado
Todos dormem enquanto
Eu infelizmente não.
Volto a ter meus pesadelos
Acordado.
Meu Deus, o que faço
Quando o sono desaba
E a alma tam...bém?

Pensamentos

Os pensamentos,
São armas biológicas,
Que curam e matam
O corpo
Que ata e desata
O nó do consciente e do
Inconsciente...
Pensamentos... (Monumentos)
Divagações... (Decepções)
A razão... (Uma alusão)
À desilusão...
Meu consciente... (Está inconsciente)

08 dezembro 2008

Experimentações, Rancores e Liberdade

Há aproximadamente um ano estou vomitando dejetos líricos e sujos, enquanto, nobre leitor, se enoje de tanto rancor e liberdade. Estamos presos há séculos em uma literatura comedida e cheia de regras. Então, decidimos fazer algo novo (não é uma Semana de Arte Moderna, mas...). Decidimos fazer uma literatura experimental, com que se faça gargalhar com o ódio,  criticar com o cotidiano e rir com o romantismo. Talvez encontre, caro leitor, algumas rimas, alguns neologismos, muitos erros, certa ingenuidade ao brincar com as palavras. Mas aprendemos. Estamos aprendendo. Os Vampiros são melhores quando mais velhos e experientes. É verdade que passamos um tempo de seca produção, mas logo veio a chuva e trouxe outro vampiro, não menos apto. Muito pelo contrário. Até deu certa conformação... ganhar o mesmo salário trabalhando menos é ótimo, não? Agora, deixemos essa balela de lado que estou faminto e não tenho tempo a perder. Ainda quero voltar para minha festa de aniversário e falar com esses humanos sem a tentação de devorá-los!