Parte III – Blood Pigs.
“Alimentado pela ferida da qual sangramos
Vomitando sujeira em nosso fraco antro de cabeças”
Minha cabeça dói. Analgésicos? Não. O dia hoje é de canibalismo. Preciso me recuperar percussivamente ao som de Otep. Girar os pulsos às distorções dessa dimensão tosca em que me meti. Os urros desesperados atingem minhas memórias e me movem para ação. Cada centímetro ao meu redor está fundo e o sofá parece finalmente ter parado de girar após o pernoite e tudo aos poucos vai voltando ao anormal. Uma ressaca realmente infeliz. Deviam ter tocado Blood Pigs na festa do trabalho. Realmente me sentiria um pouco menos enjoado. Todas aquelas figuras patéticas enojadas. Preciso me levantar. Não é fácil passar um mês sem ir ao trabalho, Mr. Jack. Ah, droga. Pisei em um dos vidros. Ninguém limpa essa porcaria de apartamento? Estou cansado. Sônia, cadê você para cuidar do seu filhinho bastardo agora? Parece que passaportes e salas de espera te arrastaram desse mundo. Pura ficção coletiva. Eu não consigo pensar nada com nada. Grite, Shamaya, GRITE! Mamãe sempre me falou que era sua belezinha, agora não pareço tão belo ilhado por garrafas quebradas, num apartamento borrado e numa vida fora de enquadramento. Não vou voltar para o trabalho, não quero que devorem minha confusão, que me façam esquecer do delírio. Estou bem assim. Melhor mastigando tendões do que comendo salgadinhos defumados, servidos por traças da última ceia escatológica. Agora que larguei tudo, acho melhor arrumar algo pra fazer por aqui. Otep já foi um bom começo, só preciso limpar minhas mãos. O sangue escorre. Não é fácil quebrar todas as peças de vidro de uma fina decoração. Sou um traidor babaca. Otário por enxergar todos os palmos que coloquei nas minhas fuças. Como de minha própria ferida plantada. E rego todos os dias ao abrir dos olhos. Sem precisar de ajuda, agora preciso falar. Mesmo que não seja o que faço, que vejo ou o que não meto pela goela abaixo de todos. Senhores e senhoras Daniels, preciso cuidar das coisas do lar. Destruindo o que ainda resta em santa arrogância.
“Com poesia e sofrimento
Canibalizei cada centímetro
Da minha dor”
27 abril 2010
25 março 2010
Procura-se poesia
Por onde andará a poesia
tão cheia de ternura
______________[paradoxos
será que ela se perdeu em
versos e rimas
tendo o futuro que preveu
Ou acabou em uma esquina
___________________[farta de fatos concretos
perdendo seu pudor perfeição
____________________[em conversas pérfidas
nas mãos do medíocre poeta
que a escreve?
Por onde andará a poesia
que mudou o mundo
que mudou o homem
que mudou a dor
____________[Será que ela ficou presa no engarrafamento?
Por onde anda a poesia
das quimeras
das primaveras
___________[Será que ela ficou presa em um pensamento ou em um jardim suspenso?
___________[Ou seriam mundos paralelos?
Por onde andará a poesia?
__________________[Será que ela ficou presa no indizível?
tão cheia de ternura
______________[paradoxos
será que ela se perdeu em
versos e rimas
tendo o futuro que preveu
Ou acabou em uma esquina
___________________[farta de fatos concretos
perdendo seu pudor perfeição
____________________[em conversas pérfidas
nas mãos do medíocre poeta
que a escreve?
Por onde andará a poesia
que mudou o mundo
que mudou o homem
que mudou a dor
____________[Será que ela ficou presa no engarrafamento?
Por onde anda a poesia
das quimeras
das primaveras
___________[Será que ela ficou presa em um pensamento ou em um jardim suspenso?
___________[Ou seriam mundos paralelos?
Por onde andará a poesia?
__________________[Será que ela ficou presa no indizível?
07 março 2010
Poema sem sentido
onde houver fama, haverá fome
onde houver ódio, haverá ópio
onde houver vida, haverá morte
onde houver tristeza, haverá alegria
onde houver tudo, não haverá nada.
onde houver ódio, haverá ópio
onde houver vida, haverá morte
onde houver tristeza, haverá alegria
onde houver tudo, não haverá nada.
04 fevereiro 2010
Injúria
Ilustração de José Vitor AndradeLevantou-se lentamente, foi ao banheiro e lavou o rosto. Era um homem acabado. Tomou um gole de café e acendeu o cigarro, ritual que mantinha há 7 anos. Olhou pela janela: a cidade estava diferente, um ar de melancolia baixava sobre a região. O suor descia-lhe pelo rosto. Olhava para algo distante e ignoto. Enxugou o suor com a blusa e foi descendo os vários degraus. Quando chegou ao fim, enxugou mais uma vez o suor do rosto e todos passavam em sua frente: alguns ignoravam-no, outros persistiam naquele mesmo olhar cruel e escarninho. Atravessou a avenida de carros e pedestre agoniados, logo em seguida pegou o ônibus e foi à casa dos avós. A casa estava alegre e com muito barulho. Talvez seus filhos estivessem lá. Apertou a campainha e não se escutou nada mais do que o silêncio da indiferença. Tentou uma outra vez, mas foi em vão. Os olhos ainda molhados de lágrimas transbordaram-se de pura vulnerabilidade e insegurança. Eles não querem ver. Saiu, mais uma vez, morto pelo fracasso. Voltou para sua casa, um apartamento barato, no 15º andar e olhou para dentro do imóvel: tudo tão perfeitamente organizado, mas nada daquilo era sua vida. Era um homem de plástico, vulnerável e fraco, rodeado de flores de vidro e fotos antigas, que alimentavam mais uma fraqueza do seu ser. Injuriado, chorou ainda mais, emudeceu e indignou-se. Ia quebrando cada porta-retrato, cada jarro de plástico como ele. Um a um, para que não sobrasse nenhum resquício de que ele estava vivendo. Sentou-se à mesa e baixou a cabeça. Toda vida que permitiu-se feliz, lembrava-se atordoado do sonho e carregava o incontestável peso da injustiça. Não era o que diziam ser. Não havia feito nada. Não havia dito nada. Mais um gole de café, mais um cigarro...
03 fevereiro 2010
Cambaleante Haikai da última esquina perdida em seus olhos
do corte peitoral profundo
batizado pelo vértice
para seus olhos jamais alcançar
batizado pelo vértice
para seus olhos jamais alcançar
28 janeiro 2010
Uma velha nova história...
Olá! Ontem ativei um blog que já deveria ter feito há muito tempo, mas nunca tinha criado coragem nem disposição. Agora ele está lá, prontinho (simples, mas pronto)para vocês, leitores dos VA, darem uma olhada!
http://contosdetunatumba.wordpress.com/
Abraço a todos, André.
http://contosdetunatumba.wordpress.com/
Abraço a todos, André.
22 janeiro 2010
Medo

O som das hélices rompeu o silêncio e, quando olhei para cima, vi milhares de pontos pretos, que se moviam rápido. Eu estava com meu gatinho nos braços, estava levando-o ao veterinário para verificar se havia alguma de errado, me preocupava com ele como se fosse meu filho. Meus cabelos esvoaçavam e eu sequer sabia o que estava acontecendo. Foi quando alguma coisa me puxou bruscamente para debaixo de um toldo, na avenida principal. Mü deixou os meus braços e correu.
- Ficou maluca? – disse Mel, e eu sequer imaginava que seria a última frase que ouviria de sua boca.
Nós voltamos ao nosso condomínio, em um bairro de classe média, atônitas. O símbolo nazista estava estampado naqueles aviões e isso não me saía da cabeça. Encontrei alguns amigos sentados numa bancada e me juntei a eles para contar o ocorrido. Quando eu estava prestes a fazê-lo, ouvi um urro. O porteiro havia sido nocauteado por um homem armado, que lhe dera três tiros. Atrás do tal homem, surgiram outros mais, milhares, não consegui contar. Nós corremos, corremos desesperadamente. Havia deles por todos os lados, e nós víamos os outros moradores morrerem, sem que pudéssemos fazer nada. Havia corpos espalhados, amontoados, mutilados. O sangue manchava nossas vestes e o desespero alheio povoava nossas mentes. Eu nunca esqueceria aquelas cenas do teatro do horror. Marcos levara um tiro na perna, uma bala desgovernada, e nós o carregamos nos ombros, todos nós.
Num ato de desespero, entramos no bloco 11. Sabíamos que, quando chegássemos ao topo, não teríamos para onde correr, mas me lembrei do alçapão que dava para a cobertura. Devia ter uma escada por lá, provavelmente. Fiz sinal para que todos se calassem. Mel, até aquele momento, não havia se pronunciado, só chorava, soluçava, tapando a boca para que não a ouvissem. Outros também estavam na mesma. Havia um rastro de sangue deixado pela perna ferida. A porta atrás de Marcos se abrira e eu me assustei, achei que era mais um daqueles homens, mas dela surgiram Layla e Hana, com uma maleta de primeiros socorros.
- Não se preocupem, vamos cuidar do Marcos. – iniciou Layla.
Conhecíamo-nos desde a infância e eu havia esquecido de que aquele era o bloco onde moravam. Estavam sorrindo, eu não havia visto ninguém sorrir desde que aquele inferno começara. Uma porta, ás nossas costas, branca. Não sabia de quem era, mas precisava me esconder, precisava esconder a todos. Entrei, junto com Mel, mas Marcos e as meninas não tiveram tempo de fazê-lo quando três homens armados subiram. Marcos se deixou levar, não queria que me descobrissem e sacrificou-se. Porque somente o meu desejo de viver é que deveria ser atendido? Dois homens conversavam. Dentro da casa alheia, ouvi o barulho dos tiros. Três. Fechei os olhos e pedi que, quem quer que estivesse lá em cima, cuidasse de Marcos e dos outros. Foi só aí que os dois homens nos notaram. Eu estava feliz, achei que eles também estavam fugindo, apesar dos ternos elegantes, mas, ao contrário disso, eles avançaram com um olhar frio em nossa direção. Entendi. Não estavam do nosso lado. Mel agarrou uma arma que estava sobre o sofá, de calibre 12, e acertou em cheio a cabeça do primeiro. O segundo a agarrou pelo pescoço e a sufocou até a morte. Eu me joguei em cima dele, mas não pude fazer nada, apenas cravar minhas unhas em seus olhos até fazê-los sangrar. Ele tombou, desfalecido. Àquela altura, o sangue em abundância era o menor dos meus problemas. Procurei os documentos do último e descobri que era um general, um general de confiança, sua patente indicava isso. Agarrei suas roupas, um pouco manchadas, e sua carteira. Vesti-me como ele, prendi meu cabelo dentro de um chapéu militar e desci. A matança havia se consumado. Não havia um ser vivo ali, milhares de pessoas haviam perdido as vidas e jogadas ao relento. Vi os corpos dos meus amigos, dispostos um ao lado do outro, e uma lágrima sofrida deixou o meu olho direito. Mas eu não podia chorar, não podia deixar que todo o esforço e sacrifício deles fosse em vão, apesar de ainda não ter entendido o porquê de tudo aquilo.
- General? – Uma voz surgiu atrás de mim.
- Sim? – respondi-me sem virar.
- Me mandaram buscá-lo, precisamos do senhor do quartel.
- Tudo bem.
Olhava sem para o lado, para encobrir o meu rosto, enquanto sentia o cheiro da desconfiança impregnada naquele soldado. Ele não conhecia o homem que matei, mas eu não poderia enganá-lo por muito tempo sendo uma mulher.
- Mariana?
Meu pai. Meu pai atravessara a portaria e gritava por mim. Dentro da minha cabeça, o desespero cresceu novamente. Mais do que antes, o meu coração doeu. Na minha mente, gritava em silêncio “Pai, vá embora, eles vão matar você! Eu estou bem, mas vá embora!”, mas não podia dizer nada em voz alta, senão o pegariam. Meus lábios tremeram, eu estava com medo e, pela primeira vez, a dor de perder a pessoa que mais amava me tomou o coração. Eu agüentaria mais um tempo, mentiria e mataria se fosse necessário. Um miado. Olhei para o lado e me deparei com um gatinho, debaixo de um carro. Ele parecia sorrir pra mim. Não parecia saber o que se passava ao seu redor. O soldado também notara o gatinho.
- São tão estúpidos...
Era Mü.
19 janeiro 2010
O cientista
Com a mão dentro dos bolsos andava a passos curtos e lentos sobre o sereno da noite, com o vento a assanhar-lhe o cabelo. Caminhou até a esquina da rua, onde estavam seus amigos sentados no chão a fumar cigarros, bebendo qualquer coisa quente e a tocar o violão, que cantava acordes de cadências harmoniosas. Convidaram-lhe para sentar, ofereceram-lhe tudo que tinham. Bebendo os solos agudos que esquentavam-lhe a alma, olhava a rua disperso na fumaça e no orvalho. Até que ponto a dor de não conhecer a fundo sua própria existência o consumia? Como ter o consolo de viver eternamente sobre lâminas, microscópios e bancadas, se ao final de tudo não conseguia explicar, ou, no mínimo, mostrar o que sentia de verdade? Apenas vive-se, a meros devaneios? O suor confundia-se com a chuva que começara a cair. Risos. Vacilou por um minuto e estava completamente molhado. Sorriu por um instante, engasgou-se com a fumaça e sentou-se no chão ainda molhado. Qual seria seu grande vazio? O amor, que fora diluído em injeções e comprimidos durante a infância e a adolescência que tinha tudo para ter sido perfeita? Ou seria o desejo, ainda que reprimido na iminência da fala? Ou seria seus questionamentos, pensamentos hiperativos que lhe roubava o sossego? Claro, não sabe. E como poderia saber? Talvez quando realmente viver descubra o que há além de corações e almas dissecados, mas não estaria vivendo? Só escutava o ruído distante dos amigos, ainda que estivessem ao seu lado. Suspirou. Finalmente levantou-se, pegou o violão e ficou a dedilhar cordas, a acordar acordes e cantarolar baixinho para preencher a si mesmo, já que os outros estavam cheios de cigarros, bebidas, vida e nada.
Bem-te-vi
Era tarde da madrugada. Caía um pequeno chuvisco sobre o asfalto da movimentada avenida. Observava os carros, solitários, passarem, um a um. As poças d'água refletiam os anúncios em neon. Sentindo e tateando a brisa gelada da madrugada, enquanto todos dormiam e eu infelizmente não, escutei quase como um grito: "bem te vi". O pássaro berrava a plenos pulmões. Escondido entre a penumbra e o farfalhar das folhas da velha castanholeira, gritava e se anunciava como quisesse que eu me levantasse da rede e fosse conversar com ele, entre os momentos (meus e seus) de vazios silenciados.
A noite, razoavelmente fria, enchia-me de idéias. Bem-te-vi, bem-te-vi... Tu cantas, não sei se por alegria ou tristeza, se de sábio ou se de importuno (quem sabe?). Teu último grito não sei se de cansaço ou decepção. Foste embora, mas teu canto insone ainda me encanta... Pobre bem-te-vi, se vieste para pedir-me um verso, perdoa-me, que não sou mais poeta..
A noite, razoavelmente fria, enchia-me de idéias. Bem-te-vi, bem-te-vi... Tu cantas, não sei se por alegria ou tristeza, se de sábio ou se de importuno (quem sabe?). Teu último grito não sei se de cansaço ou decepção. Foste embora, mas teu canto insone ainda me encanta... Pobre bem-te-vi, se vieste para pedir-me um verso, perdoa-me, que não sou mais poeta..
16 janeiro 2010
Entre a Madrugada e a Loucura
Era tarde da madrugada. Tudo parecia distorcido e eu mal reconhecia as pessoas que estavam ao meu lado. Notei rostos preocupados, principalmente o de uma bela jovem de cabelos longos e dourados. Senti fortes dores de cabeça e notei meu corpo desabando no chão. Quando acordei, não estava no mesmo lugar, estava em um hospital. Todos me olhavam fixamente, como se eu fosse um louco. Perguntei a uma enfermeira porque eu estava ali. Ela continuou calada e jogou meus remédios e deu-me um copo com água. Finalmente um médico entrou no quarto. Estava com uma prancheta em mão e começou a fazer perguntas estranhas e ele falou rispidamente que eu tentei cometer suicídio. Este médico está louco... Vi apenas um rosto belo, mas muito chateado. Saí. O dia estava lindo. O vento, várias vezes viu, durante a madrugada, os suicidas entrarem em ação. Um ato feio e triste. Muito triste.
Levantou cedo e percebeu que todos os amigos afastaram-se. O seu quarto, cheio de madrugada, exibia as estantes, com as coleções completas de Pedro Salgueiro, Moreira Campos, Airton Monte, Rubem Fonseca e Augusto dos Anjos. Há tempos que não lia. Passou a mão levemente sobre os livros e olhou para uma pasta em que continha seus rascunhos. Estava tentando escrever um livro, mas não conseguia. Estava angustiado demais para continuar seus projetos. Suas desilusões caíam sobre sua alma, rasgando-a e machucando-a profundamente. A noite era absoluta quando se sentou na cama. Olhava para uma foto, onde ele estava abraçado com a mesma moça bela de olhos verdes e cabelos dourados. Com as mãos trêmulas pegou o retrato e o queimou. Sua alma era uma colméia: por mais calma que pareça, há um turbilhão interno. Sentiu vontade de morrer. Chegou perto da janela e olhou para a rua. Recuou. Sentiu apenas o cheiro do ar e viu as lindas estrelas. Caiu inconsciente. Acordou no hospital com o mesmo olhar recriminador da enfermeira. Mas não tinha consciência do que havia acontecido. O medico falou, rispidamente, a palavra suicídio.
Sentiu-se bem, desta vez. Achava-se apenas um pouco cansado. Não se lembrava do que tinha acontecido. A moça acenava para ele e o chamava. Curioso, acompanhou a moça durante horas, que apenas sorria. Ébrio, continuava a segui-la. Escurecera. Seu corpo, suado e dolorido, estancou e a jovem sorriu. Apenas sorria. Num breu a moça pulou em um pequeno abismo. Pulou. A pancada na cabeça o deixou desmaiado. Suicídio... O jovem acordou e viu um corpo no chão. Decidiu virá-lo, para ver se o reconhecia. Era madrugada. Gritou. Era o seu corpo. Uma delicada mão fria encostou-se ao seu ombro. Ainda tremulo, perguntou que era. Uma voz feminina e melodiosa respondeu: “Loucura”. A madrugada riu e a jovem de olhos verdes e cabelos dourados continuava a falar: “Loucura... Loucura... Loucura...”.
Respirou fundo. Fechou a pasta e ficou olhando a rua ser banhada pela chuva noturna. E assim vivia: entre a boca da madrugada e a loucura.
Levantou cedo e percebeu que todos os amigos afastaram-se. O seu quarto, cheio de madrugada, exibia as estantes, com as coleções completas de Pedro Salgueiro, Moreira Campos, Airton Monte, Rubem Fonseca e Augusto dos Anjos. Há tempos que não lia. Passou a mão levemente sobre os livros e olhou para uma pasta em que continha seus rascunhos. Estava tentando escrever um livro, mas não conseguia. Estava angustiado demais para continuar seus projetos. Suas desilusões caíam sobre sua alma, rasgando-a e machucando-a profundamente. A noite era absoluta quando se sentou na cama. Olhava para uma foto, onde ele estava abraçado com a mesma moça bela de olhos verdes e cabelos dourados. Com as mãos trêmulas pegou o retrato e o queimou. Sua alma era uma colméia: por mais calma que pareça, há um turbilhão interno. Sentiu vontade de morrer. Chegou perto da janela e olhou para a rua. Recuou. Sentiu apenas o cheiro do ar e viu as lindas estrelas. Caiu inconsciente. Acordou no hospital com o mesmo olhar recriminador da enfermeira. Mas não tinha consciência do que havia acontecido. O medico falou, rispidamente, a palavra suicídio.
Sentiu-se bem, desta vez. Achava-se apenas um pouco cansado. Não se lembrava do que tinha acontecido. A moça acenava para ele e o chamava. Curioso, acompanhou a moça durante horas, que apenas sorria. Ébrio, continuava a segui-la. Escurecera. Seu corpo, suado e dolorido, estancou e a jovem sorriu. Apenas sorria. Num breu a moça pulou em um pequeno abismo. Pulou. A pancada na cabeça o deixou desmaiado. Suicídio... O jovem acordou e viu um corpo no chão. Decidiu virá-lo, para ver se o reconhecia. Era madrugada. Gritou. Era o seu corpo. Uma delicada mão fria encostou-se ao seu ombro. Ainda tremulo, perguntou que era. Uma voz feminina e melodiosa respondeu: “Loucura”. A madrugada riu e a jovem de olhos verdes e cabelos dourados continuava a falar: “Loucura... Loucura... Loucura...”.
Respirou fundo. Fechou a pasta e ficou olhando a rua ser banhada pela chuva noturna. E assim vivia: entre a boca da madrugada e a loucura.
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