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12 maio 2010

Delírio Emocional de 2° grau: Indignação, Abandono e Degradação

Parte V – Playground das aparências ferozes.

Meu prédio é um grande menino gordo e valentão de escola, que mete o dedo no nariz e se acha o máximo jogando a meleca nos óculos do aluno perdedor que não tem como reagir. Daqueles que você não quer ser amigo, mas o respeita devido à corpulência e o olhar ameaçador de quem parece não ter superiores. Do meu andar, vejo as outras estruturas domiciliares. Nanicas perante a envergadura imperiosa. Limo todos os dias aqueles que estão derretendo debaixo do sol, desconsolados, estáticos na sua mediocridade ornamentada pelo preconceito do meu controle remoto. Sinto que posso movimentá-los, sou o grande chefe daqui. Meto-lhes a cabeça na privada quando bem entender! O meu prédio é o menino gordo que cospe na cara da menina feia mesmo também sendo feio, mas só que ele não é “covarde e babaca para viver chorando pelos cantos”. Ele é o cinco estrelas rodeado por feudos parasitados em podridão. Durante o dia, todos olham sua fachada elegante com todos os detalhes modernistas e artísticos de categorias que eu não sei e nem faço questão de conhecer. Ele é o grande menino gordo que toma o lanche e o lugar do magrelo mais novo no balanço do parquinho. Meu prédio, o valentão da Escola das Aparências. À noite, em seu intimo, revela a tristeza não contemplada externamente. A socialite que vive de pensão do marido que saiu de casa por não a suportar, a família em luto pelo suicídio convencionalmente injustificável da filha, o porteiro que não recebe há quatro meses. E de um idiota que faz metáforas aberrantes conversando com uma garrafa de whiskey. Eu faço parte desse grande menino gordo e valentão da escola que volta pra casa e morde a fronha do travesseiro vergonhosamente alegando fraqueza. A diversão exibicionista é paga por prestações introspectivas. Ao dia, distribui-se violência aquisitiva aos perdedores satisfeitos, à noite, apunhala-se com a ferocidade da verdade em carne viva. Eu sou o mascote do meu prédio. A face bisonha do gordo idiota que mantém a aparência de durão para esconder sua covardia de um babaca frustrado antes de tentar qualquer coisa de útil. E por falar em algo útil, voltarei a dormir para estancar pensamentos.

4 comentários:

luiz gonzaga capaverde disse...

Já te disse que gosto mais desse estilo assim "cotidiano". A vida fudida do dia-a-dia é riquíssima na sua dureza, sua tristeza e sua beleza. Manda ver!

Abraço

Questão Fundamental disse...

Não entendi a metáfora.

Camila de Souza disse...

É sempre assim.
Quem usa maquiagem sabe que é para esconder o que não gosta. O que acha feio.

Esquecem que, mais ou menos tempo, ela sai.

Parabéns, André!

Abraços,

Camila
ilimitada-mente.blogspot.com

Vasco disse...

Caro André,
Soube do seu blog por intermédio da Indira. Andei lendo alguns textos e gostei muito, deste especialmente. Você é muito bom na construção de metáforas, característica particularmente útil e necessária a um bom escritor. Soube que você gosta - aliás, gosta, não -, soube que você é um apaixonado por Kerouac. Ele é um dos escritores que marcou meu período de universidade, tenho a primeira edição brasileira do ON THE ROAD, inclusive, durante algum tempo, alimentei o projeto de fazer a Rota 66, tendo desistido depois porque segui outros rumos, enveredando pelo orientalismo, e aí outras prioridades surgiram: ao invés da R66, acabei indo para o Tibete, Nepal e Índia. Com relação ao seu interesse por vampirismo, tenho um livro que, caso você não o conheça, creio que lhe agradaria.Trata-se de uma obra escrita pelo estudioso de religiões J. Gordon Melton, O Livro dos Vampiros - A Enciclopédia dos Mortos-Vivos. Na hipótese de não conhecê-lo, se for do seu interesse poderei mandá-lo pela Indira. Por fim, parabéns e prossiga burilando o seu estilo, pois você está no caminho certo.
Um abraço anêmico deste mortal comum,
Vasco