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19 janeiro 2010

O cientista

Com a mão dentro dos bolsos andava a passos curtos e lentos sobre o sereno da noite, com o vento a assanhar-lhe o cabelo. Caminhou até a esquina da rua, onde estavam seus amigos sentados no chão a fumar cigarros, bebendo qualquer coisa quente e a tocar o violão, que cantava acordes de cadências harmoniosas. Convidaram-lhe para sentar, ofereceram-lhe tudo que tinham. Bebendo os solos agudos que esquentavam-lhe a alma, olhava a rua disperso na fumaça e no orvalho. Até que ponto a dor de não conhecer a fundo sua própria existência o consumia? Como ter o consolo de viver eternamente sobre lâminas, microscópios e bancadas, se ao final de tudo não conseguia explicar, ou, no mínimo, mostrar o que sentia de verdade? Apenas vive-se, a meros devaneios? O suor confundia-se com a chuva que começara a cair. Risos. Vacilou por um minuto e estava completamente molhado. Sorriu por um instante, engasgou-se com a fumaça e sentou-se no chão ainda molhado. Qual seria seu grande vazio? O amor, que fora diluído em injeções e comprimidos durante a infância e a adolescência que tinha tudo para ter sido perfeita? Ou seria o desejo, ainda que reprimido na iminência da fala? Ou seria seus questionamentos, pensamentos hiperativos que lhe roubava o sossego? Claro, não sabe. E como poderia saber? Talvez quando realmente viver descubra o que há além de corações e almas dissecados, mas não estaria vivendo? Só escutava o ruído distante dos amigos, ainda que estivessem ao seu lado. Suspirou. Finalmente levantou-se, pegou o violão e ficou a dedilhar cordas, a acordar acordes e cantarolar baixinho para preencher a si mesmo, já que os outros estavam cheios de cigarros, bebidas, vida e nada.

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